Quem
tem filho pequeno já deve ter visto o novo filme animado
“Robots”. A história é bem interessante: um jovem robô inventor
com sonhos de ajudar a humanidade (ou seria robolândia?)
compra briga com um CEO marketeiro que se apossou da maior
fábrica de peças de reposiçao de Robot City. O plano do
marketeiro é de parar de fabricar as peças, mais baratas
e acessíveis, para vender apenas upgrades, ou “armaduras”
completas bem bonitas e caras, mas que tirariam os robôs
mais pobres ou velhos de circulaçao. Marketeiro sempre é
malvado.
O
engraçado é que o filme reflete muito do que está acontecendo
na realidade. Que o diga quem precisa comprar uma bomba
de combustível inteira para o carro, porque não dá mais
para consertar como antigamente. Agora ela é lacrada e feita
para jogar fora. Na verdade, um estudo recente da Consumer
Reports mostra que os americanos aceitam esta estratégia,
já que não se dão ao trabalho de mandar consertar produtos
de menos de 100 dólares que quebram. No começo dos anos
90, esse valor era de 30 dólares.
Dois
fatores econômicos são os principais responsáveis por essa
transformação. O primeiro é a China, que mostrou ao mundo
que pode se deixar a qualidade meio de lado se você conseguir
cortar os custos o suficiente. O segundo é a influência
do varejo tipo WalMart nos EUA(e Rua 25 de Março em Sao
Paulo), que com suas táticas de negociação dura conseguem
oferecer produtos a preços nunca antes vistos. Um terceiro
fator é cultural: a falta de tempo e a correria do mundo
moderno. É mais rápido comprar outro produto que mandar
consertar.
Esse
movimento é oposto ao que foi visto quando o grande concorrente
das empresas ocidentais era o Japão. Quem não se lembra
da TQM (total qualidade management), Six Sigma e tantas
outras siglas que inundavam a administração nos anos 80?
A única maneira de combater a excelência japonesa era conseguir
igualar sua qualidade. Mas até que ponto dá para aperfeiçoar
uma torradeira? As pressões de Wall Street por lucros rápidos
também têm lá sua responsabilidade por forçar as empresas
a colocar produtos para fora da porta o mais rápido possível,
com um preço que dê para combater os chineses. E como o
consumidor deixa, é muita tentação. Mas quais serão
as consequências na imagem de marca a longo prazo?
Mas
será mesmo que os produtos estão ficando piores? Afinal,
hoje é bem mais difícil um pneu furar do que dez anos atrás.
Alguns carros fazem a primeira revisão só aos 40 mil quilômetros.
Porém é preciso se diferenciar entre maior tecnologia e
maior qualidade. O pneu dura mais porque seu processo de
fabricação e seus materiais são mais avançados tecnologicamente,
e não necessariamente porque são feitos com maior cuidado.
Uma prova disso são os botões que caem do painel dos carros
e as peças que já vêm com defeito da fábrica, mesmo em carros
modernos. Talvez as empresas achem que a tecnologia compense
a falta de capricho e por isso acabam trocando aquela peça
que era de metal por uma de plástico que quebra logo depois
da garantia acabar, ou colando a peça ao invés de parafusar.
Porém,
existe evidência que a qualidade vem mesmo caindo. A Sociedade
Americana de Qualidade tem um índice que mede a satisfação
dos consumidores, e ele diminui ano após ano. A HP teve
uma queda de 9% em relaçao a 1994 e até a GE, com seus faixas
preta do Six Sigma, caiu 2,5%. *
Um
estudo do consultor americano Greg Brue mostra que a maioria
dos produtos tem desempenho semelhante no primeiro ano.
Ou seja, não quebram. A diferença entre as empresas mais
ou menos cuidadosas aparece depois que a garantia acaba
(e você achava que era só sua imaginação). Os efeitos sobre
preferência e lealdade de marca, porém, só aparecem depois
de cinco anos, quando o consumidor cansado de ver o produto
quebrar, vai procurar outro fabricante. Mas aí o presidente
da empresa já é outro e o bônus já foi ganho.
Um
exemplo bem perto de casa foi a recente transformação de
uma categoria inteira (o requeijao cremoso), que passou
a usar gordura vegetal no lugar do leite. Note bem que na
embalagem agora diz “especialidade láctea”. Virou na verdade
uma margarina disfarçada, como já é há muito tempo o sorvete
brasileiro. O sorvete que se chama premium, ou italiano,
só é bom daquele jeito porque é feito com leite !
Valerá
a pena insistir na qualidade a longo prazo? Parece existir
uma luz no fim do túnel. Uma das poucas empresas que tiveram
um crescimento no índice de satisfação de qualidade foi
a Apple. Repare na qualidade dos materiais e acabamento
dos produtos deles e entenda porque as vendas da Apple só
sobem.
Para
finalizar: sim, o robô inventor derrota o marketeiro mau
e as peças de reposição voltam a serem feitas. Mas isso
você já sabia, porque afinal no cinema é assim mesmo, só
tem final feliz.
*
"Beware The Product Death Cycle", de Art Kleiner
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- Marcos Dutra é editor do Pensando
Marketing e profissional da área com passagem em
empresas como Johnson & Johnson, Sadia e Credicard,
graduado com distinção no MBA de Thunderbird,
nos EUA.
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